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A luz de Dona Ivone Lara brilha em Boteco qualquer

dona ivone

SÃO PAULO (cavaco na mão, começo) – Que São Paulo é uma cidade cheia de opções de shows, não é nenhuma novidade. Só uma passada de olhos pelos jornais já comprova isso. Tudo bem, nem todas agradam ao seu e ao meu gostos. Há umas caras, outras muito caras. Umas pops, outras superpops (mal Luciana Gimenez, foi sem querer querendo). E tem aquelas que acontecem um pouco mais escondidas, ao menos, das lentes da grande mídia. Não me lembro de ter lido em algum jornalão por ai: “Arlindo Cruz se apresenta nesta sexta na Peruche” ou “Dona Ivone Lara faz show para poucos no Boteco do Seu Zé”. Não sei se é por que para virar notícia o que interessa é onde eles se apresentam ou como a informação chega ao jornal, via publicidade, jabás ou afins. Enfim, vamos parar de choradeira, e ao que interessa. Eles aconteceram. E vou te contar que foram bons.


Agora não me lembro qual foi primeiro. Não faz muito tempo. Um mês talvez. Deixa eu ver no ingresso. Ahh, não to achando, deixa pra lá. Vou começar respeitando a tradição. Primeiro os mais velhos. Afinal, 87 anos e ainda mandando bala não é pra qualquer mortal. Dona Ivone Lara é isso. Quando fiquei sabendo que a dama do samba ia se apresentar em um bar na Mourato Coelho, achei que não conseguiria vê-la ou que seria um Deus nos acuda pra estar entre os privilegiados daquela noite.


Na hora, estava no caixa do Boteco, pagando umas cervejas antes de ir pra casa e acordar na segunda-feira. Tentei comprar no mesmo instante, assim que a imagem da velhinha de óculos pesados, em um flyer anunciando o show, bateu na minha retina. Não era alucinação, mesmo assim não teve como. As vendas só começariam na semana seguinte. Mais uma vez o medo e ansiedade tomou conta das minhas sinapses. Algumas ligações e convites depois, vi que teria que bater ponto ali na semana seguinte. Tudo bem, não foi um sacrifício. Depois de sete dias, cinco ingressos na mão e 100 reais a menos (ainda seria reembolsado por quatro deles, afinal não tenho filho desse tamanho), tudo levava a crer que não conseguiríamos um bom lugar. Em casas pequenas e shows tão vips, para poucas pessoas, a tendência é que os menos influente$ caiam na dança da solidão. Não foi o que ocorreu, por incressa que parível.


No grande dia, a mesa estava lá. Tudo bem não era aos pés de Dona Ivone, mas ficava a uns quatro metros de seu dedão direito. Era apertada? Era. Não cabiam quatro pessoas? Não cabiam. Beleza, vemos em pé aos pés dela então. Na chegada da sambista, os seguranças tiveram que abrir passagem para ninguém ter a infelicidade de machucá-la. Todo cuidado era pouco. A casa não estava cheia é bem verdade, mas todos os súditos queriam ficar perto da rainha. Achei que iam ter alguns bambas e nobres conhecidos na área. Nada também. Engraçado, na hora nem prestei atenção a isso, como achava que aconteceria. Só me lembrei disso agora, porque na hora só tinha olhos pra ela.


Dona Ivone sentou em seu trono e foi logo mandando o recado: “eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho, ahhh eu vim de lá pequenininho, alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho…”. A banda era boa, formada pelos meninos da casa e a cantora titular do domingo, conhecida entre nós como Maria Rita, apesar de seu nome não ser esse, certamente. Faltou um pouco de entrosamento nos primeiros versos. O rapaz do som teve muito trabalho pra arrumar a chiadeira, já que o bar não tem a acústica e o preparo de uma grande casa de show. Mesmo assim, tudo seguiu mais que nos conformes. Em pouco tempo , o público fazia o coro para a grande dama e batia na palma da mão com os meninos do batuque. Dez ou doze sucesso depois… “Acreditar eu não, recomeçar, jamais, se a vida foi em frente, você simplesmente não viu o que ficou pra trás, acreditar…”.


Confesso que a vista ficou embaçada. Não é todo dia que você vê uma lenda viva, a quatro passos de você com tamanha disposição aos 87 anos. O corpo mostrava claramente o estado de fraqueza em que ela se encontrava. Mas a voz e os olhos mostravam um brilho diferente durante os 60 minutos de cantoria. Coisa que não dá pra descrever. Mistura de alegria, cansaço, orgulho, paixão pela vida, pelas pessoas e pelo samba. Coisa que não sai no jornal todo dia. Obrigado por ter vindo, Dona Ivone.

PS: Fico devendo o show do Arlindo Cruz, foi coisa fina também. Infelizmente, o sono pesou nas pápebras. Té mais

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SÃO PAULO (Marcelinho acaba de fazer gol no Curi, canalha) – Jogo, partida, pelada, peleja, racha, rachão, baba… Baba? Isso mesmo. Existe lugar no Brasil em que essa saudável brincadeira com duas traves e alguns malucos atrás de uma bola é denominada baba. Mais precisamente pelas bandas da Bahia. Dizem que a expressão vem da idéia de se jogar futebol sem profissionalismo, de forma amadora, o sentido teria surgido da frase “esse jogo está uma baba (de quiabo)”. Verão que pouco importa.


Deve ser por isso que aqueles baianos não ligavam tanto assim para o gol. A meta parecia ser tirar sarro do adversário. O palco era a praia da Coroinha, em Itacaré. Não é exatamente a capital do futebol no estado. Numa primeira bisoiada, eles estavam longe do nível dos rachas das praias aqui do sul. Visto da calçada, a bola pouco rolava e não se via aquela troca de passes longos, característico dos velhacos da Lagoinha.


Confesso que já fiquei de língua caída nas pelejas contra os tiozinhos da Tabatinga. Em campo, eles nem pareciam os pais de família com suas latinhas de cerveja e salgadinhos de minutos antes. Deve ser coisa da redonda.


Nas areias baianas não foi diferente. Pra começar as regras eram diferentes por lá. Não existe essa de time de fora e 10 minutos ou dois gols. Começado o baba, os dois times só saem quando quiserem. Por isso, pra entrar no jogo é bom conhecer alguém antes da bola rolar ou torcer pra alguém sair.


Comigo, quase que a segunda hipótese deu certo. Estava do lado de fora querendo tirar uma lasquinha do baba já começado. Claro que o paulista não conhecia o estatuto local. Percebi que não tinha time de fora, mas ali estava um cabeleira reclamão doido pra entrar. Sua putice era percebida por todos. Dizia que foi sacaneado e deveria estar mostrando sua habilidade em campo. Não parecia ter muita, é verdade. Chegava a ameaçar chutar a bola pra longe, caso a coitada parasse perto dele.


Achei que era brincadeira de amigo, até que ele cobrou um tiro de meta a la Marcão em direção ao mar. Todos levaram numa boa. Parecia ser esse o espírito do lugar. Nada de regras, nem rancor. Até que um dos escalados para a disputa resolveu sair para dar lugar ao cabeleira. O marrento não quis entrar, é claro. Foi então que ouvi a esperada oferta. Não titubiei. Sou idiota, mas não sou trouxa. Entrei já perguntando o time e pra onde atacava. 30 segundos se passaram e o mal-estar já começava a se instalar. Logo entendi.


O substituído queria apenas dar lugar ao cabeleira, e o reclamão não queria entrar. Não queria nem saber (coloca a menina pra rolar). Não teve jeito. Tive que sair para o substituído voltar, e o baba parado há 5 minutos continuar. Mas a minha vez ainda estava por chegar.


Tive de amenizar minha vontade de bola em um futebol mirim. Não eram crianças propriamente ditas, mas preferiam jogar em um semigramado com relevo de minigolfe a desfrutar do outro campo de areia ao lado do baba oficial. O tempo passou e lá pelas tantas, quando já estava tirando meu time de campo, surgiu outro desafio de baba. O jogo principal da praia da Coroinha já havia acabado e o palco estava vazio.


Meu time seria formado pelos jogadores mirins. Do outro lado, o adversário parecia mais bem preparado para a brincadeira. Pelo menos metade da esquadra tinha 1,80 m e 90 kg. Cidade de praia. Todos com cara de jogadores de capoeira em plena atividade. Mas aqui é curi, eu precisava chutar em direção a uma trave e não de ter dois chinelos como a meta.


O baba começou. Dez minutos se passaram e tava lá. 2 a 0 para eles, fora o baile. Ali comecei a entender melhor o significado da palavra. As jogadas individuais determinavam o ritmo de jogo. Ao contrário da minha primeira impressão, sim… eles eram habilidosos, sabiam lançar, cabecear e cruzar com precisão. Meu time estava tomando um sacode. Até que em uma tabela pela meia esquerda, acertei uma pancada no gol, 2 a 1. Certeza que eles não colocavam fé no paulista magrinho e branquelo. Mas futebol tem dessas.


Outra bola na corrida e pau. O goleiro espalmou e ficou atordoado. O nosso time começou a crescer e a igualar as ações. O guarda-metas gritava com a zaga da sua squadra. “Segura o de branco, não deixa chutar.” Senti que estava com moral e gostava do jogo, mas o preparo não é mais o de outros tempos. Sem saber se agüentaria muito mais, ainda queria sair por cima.


Não é que ela tem dessas. Recebi outra bola pela esquerda, cortei um marcador e pau. Ta lá, Mais um. 2 a 2. Era a hora puxar o carro Três minutos depois falei com um dos espectadores e a substituição foi feita.


Os meninos continuaram jogando por mais uma hora. Eles podem. Baba, rachão, racha. peleja. pelada, partida, jogo… Não importa qual a graça, a alegria ou o sassarico, Os encantos da redonda ultrapassam fronteiras e subvertem a lógica de cada um.

Dá-lhe Boo na Caixa de Bombons

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SÃO PAULO (sem gripe suína, ao menos por enquanto) – Diário de bordo. Back from Buenos Aires. Entre mortos e feridos, destaque para a partida entre Boca X Gimnasia. Amantes do bom futebol, os sete vira-latas lokos em sua viagem de férias pelas terras hermanas não poderiam deixar de ver de perto a arte vizinha. Não discutiremos aqui quem são os melhores, nós ou ellos, pois já sabemos quem é o peeeeentacaaaaaaaapeãoooooooooo mundial. Visto isso, vamos aos fatos.


A vontade era de ver a partida como um autêntico torcedor, no meio de La 12. Tínhamos isso na cabeça até visitarmos a Bombonera dois dias antes da partida. Na visita ao estádio, ouvimos diversos mitos sobre o Boca e sua torcida, sobre Maradona e sua carreira, sobre a beleza e a violência nas arquibancadas. Claro que só acreditamos em 20% do que nos foi dito, mas uma coisa era certa. Não iríamos conseguir passar por argentinos em sete. Depois de muito ouvir os hermanos nos arredores da Caixa de Bombons, decidimos encarar o pacote turístico do albergue. Sim, era caro, mas era certo também.


O dia havia chegado. No fundo, a única atração que não queríamos perder em Buenos Aires era aquela. Subimos no ônibus com outros 30 ingleses. Tava na cara que não deveríamos ficar perto deles. Tanto para não sermos roubados, como para não vermos o jogo do turistian way of life. Saímos do albergue com três horas de antecedência para o ínicio do jogo. Como todo bom brasileiro, queríamos dar aquela aquecida na garganta ao redor do estádio. Uma cervejinha só para entrar no clima. Não teve como. O barco tomou outro rumo. Bar em San Telmo. Lugar bonito, clima legal, mas faltou honestidade nos preços. Esperamos todos os gringos encherem a cara e torrarem seus euros e, finalmente, partimos para o estádio.


Antes de tocarmos para a Bombonera, tivemos uma baixa no grupo. Um dos perros lokos se perdeu da matilha. Pensamos o que teria acontecido. Um pedaço de carne o teria levado, um osso largado, uma cadela no cio…. Sem respostas, confiamos no faro do companheiro de caça para chegar lá. Afinal de contas, não era mais um filhote, conseguiria se virar.


Com 30 minutos para a peleja começar, as arquibancadas ainda estavam vazias. Achamos que o jogo seria morno, sem graça. Mas La 12 foi chegando aos poucos. De frente para a nossa arquibancada, os degraus do outro lado da cancha eram ocupados aos poucos. As faixas enfeitavam o estádio. Aquela com a contagem dos gols do atacante Palermo, no seu devido camarote. Eis que uma faixa da torcida visitante se solta e fica pendurada no andar superior ao nosso. A torcida do Boca pira. Começam os gritos. Vejo um rapaz bem vestido pular o alambrado e ir em direção a ela. Achei que fosse algum tipo de segurança à paisana. Nada. Era um membro de La 12, atrás de seu prêmio.


Agarrado na faixa como a um cipó, o doido com a bela jaqueta da torcida organizada tentava rasgá-la. Não adiantou. Surge então um isqueiro. O vento atrapalhava, mas aos poucos pequenos buracos eram feitos nela. Até que apareceu um lança-chamas. Na verdade, um desodorante spray que rapidamente colocou fogo e incendiou a torcida. Ali dava pra perceber que o mais importante na Bombonera era a torcida e não o jogo.


Os times entram em campo. Jogadores escalados. Sim, Roman, Palacio e Palermo estão lá para a nossa alegria. Apita o árbitro, está valendo na Caixa de Bombons.


O jogo começa com o Boca melhor, trocando muitos passes. Mas é o visitante que marca primeiro. Em um dos 47 vacilos do lateral esquerdo do Boca, passe errado pega a defesa despreparada e pimba na gorduchinha. 1 a 0 Gimnasia. A laje de cima balança. A Caixa de Bombons se esfarela nas nossas cabeça. Num primeiro momento achamos que estavam jogando coisas na gente por não sermos dali. Só mais tarde, com uma pedra na cabeça percebemos que era cimento da Bombonera.


O jogo segue na mesma toada. O Boca troca muitos passes, quase não tem lateral nem escanteio. Mas é o Gimnasia quem tem claramente o domínio do jogo. Quando ataca, leva mais perigo. Quando é atacado, não tem grandes problemas. Só que a peleja era na Bombonera. O Boca está em péssima colocação no campeonato e o árbitro arrumou um pênalti mandraque. O gigante Palermo é “deslocado” dentro da área em um cruzamento e caiu. Piiiiiiiiiiiiiii.


Bola na marca da cal. Palermo preparado. Correu, bateu, tá lá. 1 a 1. Teve parceiro que dormio no ponto, deu uma antoniada e perdeu o gol. É o primeiro caso de gol de pênalti não visto por um espectador na história do futebol mundial.


Na volta do intervalo, até parece que o time da casa vai virar a partida. Mas a toada é a mesma. Muitos passes, sem laterais ou escanteios. Roman até mostra por que é diferente. Vê espaços só imaginados por craques. Nem isso faz a diferença. Falta próximo da área para o Gimnasia. Cobrança na área, tá lá. 1 a 2. Confesso que fui enganado por um comentário de um colega e não vi o gol. Acontece. Pelo menos não foi de o pênalti que perdi.


A peleja segue no mesmo ritmo. O Boca parece satisfeito. Está na zona de rebaixamento, mas não será rebaixado. Os hermanos protegem os grandes. Para cair para a série B, faz-se uma média dos últimos três campeonatos, dizem as más línguas.


Já o Gimnasia comemora a vitória como um campeonato. E foi isso mesmo. Eles escaparam do rebaixamento em plena Caixa de Bombons. O jogo foi bom, mas o que ficou na cabeça ecoando por uma semana foram os cantos da La 12. Espetáculo. Outro estilo de torcer. Bonito como o daqui, só que diferente. Mais constante, menos explosivo, mais ritmado e musical. Dale Bo, Dale Bo, Dale Bo. Vai Curintia

Conselhos de seu Almir ao pé do palco

SÃO PAULO (o Kobe joga demais) – Não teve como resistir. Os conselhos de Almir estavam a caminho, mais especificamente falando, subindo as escadas a nossa frente. Ele, uma bela senhora, que parecia ser sua mulher, e alguém que tinha pinta de ser seu empresário. Foi chegando devagar, sem muito alarde, mas todos perceberam de cara a elegância entrar na coxia. Os meninos continuavam ludibriando a platéia cansada e guerreira do Anhagabaú.


Todos na banda começaram a demonstrar o respeito ao bamba. Ele não tinha nem entrado no palco e sua presença já podia ser sentida. O assessor fazia o meio campo, dizia ao pé do ouvido do Almir quem era quem, alguns ele parecia se lembrar. Uns cumprimentos entre uma batucada e outra, era chegada a hora. Pegou o microfone, pisou firme e entrou já mostrando que tava na área. A memória já não tá ajudando. Não era Conselho, nem Caxambu, mas ninguém conseguiu ficar parado. O telecoteco começou quente. A alegria acabou com as dores nas pernas. Eu e meu parceiro combinamos só umas cinco músicas.


A sexta era imperdível. Ta bom ficamos mais essa. E a sétima então? Mais uma. A vigésima também não tinha como perder. Quem parecia não estar muito feliz era o seu Almir. Com a toalha em uma mão e o microfone na outra, regia a banda. Eles estavam bem. Tinha cavaco, pandeiro e tamborim, mas em algumas o velho precisava dar a levada. Coisa de cabra da antiga. Mas o que incomodava não era o ritmo da banda. O problema estava na voz. Não na dele, rouca e grave na medida de Almir, daquela que nunca se sabe se nasceu bêbado ou se é assim mesmo. Era a voz das caixas que não estavam agradando o ex-fundo de quintal. Reclamou uma vez com a mesa de som. Seguiu. Reclamou mais uma. Trocaram o microfone. Na terceira vez, o outro cantor deu seu instrumento a Almir. Mais uma música.


O clima tava pesado no palco. Ninguém parecia entender nada. O empresário-assessor começou a ficar sem graça. A mulher parecia já prever o pior. Almir dessa vez tirou o microfone da boca e gritou para o técnico na mesa de som. “Porra. Que merda é essa?” “Tá querendo fuder?”. Seguiu para o público, como se nada tivesse acontecendo. “Tem que mudar. Não se abater. Só se entregar, a quem te merecer..” Mais uma vez trocou de microfone. Parecia normal, mas para ele nada. Mais uma vez gritou. “Caralho! Que merda é essa?” O técnico mudo. Almir se virou deixou o microfone no chão. Bateu palmas para o público e vapt. Zarpou pela esquerda com aquela que parecia a mulher e o outro que tinha pinta de empresário. O outro cantor da banda logo soltou o “se vira nos 30” e seguiu com a toada, mas o show não tinha como continuar. O bamba se foi. Pisando firme mais uma vez.


Os solos perderam a emoção. Acabou o gás. O Metrô já estava aberto e as pernas voltaram a doer. Foi bamba enquanto durou.

SÃO PAULO (ufa, nada como uma cadeira) – Como estava falando, a festa do antigo colégio tava boa. Só não esperava o que estaria por vir. Esperava, vai, mas não do jeito que foi. Seu Almir e o jovem Diogo prometiam. Não era dos maiores fãs do garoto cheio de acessórios de ouro. Confesso que pensei em desistir.


Minhas pernas já não equilibravam direito os 76 quilos sobre elas. Precisava descansar ou, mais uma vez, não veria os conselhos de Almir. Olhei para os lados e nenhum lugar razoavelmente seguro pra encostar. Apoiado na grade que separa o público da boca do palco, só passava pela minha cabeça pular aquela cerca. Tudo bem, seria detido pelos seguranças da área “vip”em questão de segundos. Parti então para a estratégia diplomática. Perguntei ao rapaz-que-manda-prender-e-soltar o que precisava para estar entre aqueles agraciados por Deus.


A resposta me causou certa revolta. Precisava fazer parte da patota da prefeitura. Uma festa da cidade, que deveria ser para todos os cidadãos de uma forma democrática, era oferecida com certa regalia para quem deveria servir ao povo e não se servir dele. A calma ficou para trás junto com a força das pernas, mas sabia que esbravejar só iria dificultar as coisas.


Em segundos, aprendi a fazer cara de quem era convidado da prefeitura. Ensinei ao meu fiel companheiro de siriguidum e encaramos outro rapaz-que-manda-prender-e-soltar. Não deu outra, nossa cara foi convincente, principalmente, porque a segurança era aquela que estamos acostumados a não ver.


Atrás do palco, tinha um espaço reservado para um pouco de amendoim, barquinhos de maionese, guaraná, água e a cerveja que já tinha acabado, é claro. Me larguei no primeiro banco que apareceu. Os conselhos de Almir voltavam a ser uma realidade próxima. Dez, vinte, trinta, quarenta, cinqüenta, sessenta, setenta minutos se passaram e o filho do João não tinha nem dado a graça. Meu fiel escudeiro estava lá para vê-lo. Agora eram as costas que não agüentavam. Até que o locutor anunciou. “Diooogo Nogueeeeiiira”. Partimos para a área dos agraciados pelo poder de Deus.


O garoto de acessórios de ouro não me impressionava, mas, quando ele apelou para o sentimentalismo barato, cai que nem um patinho. Não tinha como não se emocionar com o dueto dele com seu pai João, que Deus o tenha, em “Espelhos”. Música do caralho e esquema Nat King Cole. Continuo não gostando dos seus anéis e a pinta de playboy, mas há de se respeitar que o garoto nasceu no samba e tem tradição no sangue. Mas minha história era outra. Precisava de conselhos.


Voltamos para perto dos amendoim. Eles não estavam mais lá, não estavam liberando mais guaraná nem água. Nem água?!? Safados. Tava tudo lá, só faltava compaixão e um pouco de boa vontade. Não teve como. O Almir ficava cada vez mais longe. Já era 4h40 de domingo e nada. Combinei que se ele não aparecesse em 15 min, iriamos embora. Não tava dando mais. Até que o locutor anunciou. E com vocês: não era o Almir. Ele anunciou uma outra banda. Foi a gota d`água. Já estava caminhando em direção do rapaz-que-manda-prender-e-soltar, quando a escada do palco me seduziu. Queria conhecer como era aquele lugar de tanta magia.


Convencido, meu fiel escudeiro concordou que só mais dez minutos pra ver como era a magia. Afinal, o Almir não ia aparecer. O nono minuto fazia seu percurso final, fizemos o sinal de positivo e nos viramos em direção à escada e ao rapaz-que-manda-prender-e-soltar. Não era ele que estava lá. Os olhos foram preenchidos por uma visão. Era ele. O negão subia a escada na estica. Sapato preto brilhando, calça social cinza bem passada, cinto preto e camisa cinza (acho que era isso. A visão já não funcionava direito e o coração não deixava pensar). Era ele mesmo. Não teve como. Só podíamos dizer uma coisa: “Puta que pariu”.


O Almir merece um texto só pra ele. Vou ter que preparar outro e acabar esse por aqui. Vai vir conselho por ai.

Parabéns atrasado, São Paulo

SÃO PAULO (o dedão tá doendo demais, maldita inflamação) – A data é especial. Faz 455 anos que Anchieta e Da Nobrega fizeram aquele colégio de taipas entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú. A vizinhança cresceu um pouco e 25 de janeiro é a data pra juntar o pessoal da rua. Dessa vez, o pessoal que arruma comida chamou o pessoal que fazia barulho na senzala pra animar a festa.


Teve batuque na cozinha do Mercadão o sábado todo.Um dia antes do aniversário da cidade, a turma comemorava os 76 anos das barracas. Muita gente boa. Samba da Laje, Samba da Vela, Quinteto em Branco e Preto… não consegui ficar pra ver o Jair, a Dona Inah e o Germano cantarem parabéns. Tinha mais gente fazendo festa ali perto. O lugar antigamente era um leito sinuoso, agora é uma praça com o mesmo nome do rio.


Anhangabaú repleto de notívagos. Seu Jorge alegrando o público em sua maioria de homens, afinal, já não era das horas mais apropriadas para ficar de bobeira na praça. Um tanto esquisito o Jorjão com aquele casaco de couro, típico dos europeus, em pleno clima de verão. Ele não aguentou e teve que tirar. Também ninguém resistiu ao seu suingue. Tava tarde e as pernas não aguentavam mais. Mas tinha que ficar. O Almir ia aparecer de novo na cidade e não podia perder. Dessa vez não ia ter catraca que me segurasse. Os joelhos ameaçavam, mas não esperavam pelo o que viria. Isso até merece um descanço aqui pra continuar em outro lugar mais acima.

PS: O texto estava perdido no meio de umas lembranças, alguns arquivos digitais e um pouco de preguiiiiiiiça. Mesmo assim, achei que valia a pena.

benjamin-button “Clouds roll by…Low light”

Jeff Ament

SÃO PAULO (metade na escada, metade na cadeira) – Fim, começo, morre, nasce, envelhece, rejuvenesce, parte, chega, esquece, lembra, e o meio? O que tem entre tudo isso? É no meio de acontecimentos extraordinários como esses, como a Primeira Guerra Mundial, o furacão Katrina, a Segunda Guerra Mundial e até os Beatles (por que não?) que se passa “O Curioso Caso de Banjamin Button”.

Lendo a sinópse do filme já dá pra perceber de cara que não se trata de mais uma histórinha romântica de Hollywood. Não é apenas um filme sobre amor impossível para fazer alguns corações mais moles soltarem suas lágrimas. É um causo de algo extraordinário que se utiliza de uma narrativa fantástica para registrar uma coisa comumente fantástica, seja ela para os livros de história de colégio ou para diários pessoais.

Uma estória sobre alguém que nasce fisicamente velho e vai rejuvenescendo com o passar do tempo já causa uma certa curiosidade. Não, o longa do diretor David Fincher, baseado no conto homônimo de F. Scott Fitzgerald, não tem efeitos especiais como os de Star Wars. Claro que não é simples representar um bebê com cara de que acabou de morrer ao nascer, de refazer batalhas das guerras mundiais, de envelhecer e rejuvenescer Brad Pitt e Cate Blanchett, ou até de deixá-los feios.

Que isso é curioso, é claro que é, mas o que tem no meio disso é o que parece interessar aos autores. É com a mudança da ordem biológica de nascer e morrer que eles chamam atenção para alguma coisa que está no meio disso.

Que o tempo é o senhor dela, não é de hoje que dizem isso. Às vezes, é preciso parar um pouco o relógio, inverter a sua ordem, esquecê-lo em algum canto, para sentir o que há de fantástico nela.

Sempre tem gente que sai da sala dizendo: “caramba, parece que o filme tem cinco horas”. Como também tem quem nem vi as duas horas e quarenta e seis minutos passarem. Ou melhor, viram ela passar de uma outra maneira. Um pouco mais lenta às vezes. Um tanto mais triste em outras. Com muita emoção em todas.

Pois, tem gente que nasce para ser artista, tem gente que nasce para fazer botões, tem gente que nasce para ser bailarina, tem gente que nasce para recitar Shakespeare, tem gente que nasce para fazer música, tem gente que nasce para ser mãe, e todos nascem para chorar. É só uma questão de tempo. Sempre ele. FIM

Cinismo de doçura no Sesc Pompeia

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SÃO PAULO (quem inventou os pêssegos? Dio mio) – Tudo certo. Horário do plantão trocado. Já era hora de conhecer aquela voz castigada pelo álcool de perto. Acordo mais cedo. Acostumado a outro fuso biológico, o corpo já não responde do mesmo jeito. Mesmo assim, está tudo no cronograma. Trabalho, almoço, dormidinha e o encontro. Passo na casa do companheiro em tempo.

Os aredores do Sesc Pompéia fogem do clima abandonado a que a cidade foi largada com as festas do ano-novo. A movimentação aumenta, mas nem de longe aparece aquele mar de gente comum nesses tipos de encontros. Sim, os flanelinhas estavam lá, mas os carros não lotaram seus bolsos. Deu para parar tranquilamente. Tudo caminhava para o insensato destino.

Ele finalmente apareceu. Em forma de uma placa avisando que os ingressos estavam esgotados. Ingressos? Mas que ingressos? Não li em nenhum lugar que precisava disso. Achei que o evento era gratuito e aberto a todos. Estava enganado. Devia estar enebriado pelo clima amistoso pelo qual a cidade estava tomada. Sem filas, sem carros, sem trânsito, sem fúria, sem jeito fiquei. Contra fatos não há argumento, já diria alguém. Só ódio mesmo. O amargo na boca estava incontrolável. Não desceu bem mesmo.

Não podia me dar por vencido. Nada indicava que não caberia mais dois para encarar o bamba. Tá bom vai, mais uns trinta. Não fui o único supreendido pelo destino. Tinha gente que parecia tão decepcionada quanto eu. Gente da comunidade, gente sem comunidade, gente que se emperequetou toda pra ver o Almir, gente que tirou aquele pisante branco do armário e a melhor camisa pra se mostrar na estica como o Guineto.

Não teve jeito. Tiveram alguns sortudos que foram presenteados pela chave mágica na porta da esperança. Alguns tinham mais de um ingresso para cada par de perna. O Flamenguista era uma mistura de choro, fúria e desespero. Descobrira um cambista com um bolo de ingressos no bolso, vinte e cinco reais cada. Mas não era de graça? Não dava pra distribuir um por pessoa? Olhava o pouco da pista na fresta entre o segurança, a porta, a parede e a triste senhora de rosa. Juro que cabia mais gente sem risco ao bom convívio de todos. Ninguém ia se sentir que nem na lata de grandes rodas em que andam para cumprir o batente todos os dias.

Espremido estava o coração. O refrão já deixava o Conselho pra trás. Não queria desistir. Que isso, companheiro. Quero tentar. Ainda vai ter um bom coração que vai devolver o brilho a esses 25 olhares, deixar de lado aquele baixo astral e esquecer o mal. Ingenuidade pura. Não sei por que ainda tenho isso. Deve ser aquela esperança besta em algumas vivas almas.

Só restava tirar aquele amargo da boca com algo gelado. Quatro gelados depois, o show não ia mais continuar. As portas se abriram e alguns sorrisos fáceis passaram. Certeza que cabiam mais algumas risadas na boca daquele palco. Feliz velho ano.

Estão ruim da cabeça ou doente do pé?

SÃO PAULO (essa hora a lente já não funciona direito) – O dia é de comemoração. Não falo da condenação de Daniel Dantas a 10 anos de prisão por corrupção ativa, mas de algo que tem mais a ver com o fundo das senzalas. Que ele nasceu lá na Bahia e foi criado no Rio, todos sabem. Já menino colocou seus pés no barro de Minas e no asfalto paulistano. Sua cara é de Brasil.

Dizem que hoje é seu dia por ser a data de uma viagem com Ary ao solo baiano. Outros, por ser a data de um recado pelo telefone. Não podia ser diferente. A dúvida e a contradição estão em suas veias, porque ele é a tristeza que balança. Tem muita gente que não consegue ficar parado em suas festas. Prova de muita saúde.

Mesmo assim, teve gente que esqueceu dele hoje. Aqueles que dizem estar atentos ao que tem de mais importante por ai para mostrar a todos, mas só enchergam o próprio umbigo. Fazem notícias de si mesmos. Sei de muitos que querem saber mais sobre o tal. Suas histórias de amor e ódio, de alegria e lágrimas, de traição e fidelidade.

Isso deve ser choro de menino novo. Ele não deve estar nem aí. Deve estar explodindo nas gargantas à luz fraca, escorrendo nas lágrimas sorridentes, se enrolando nas pernas bambas. Ele não chegou agora nesse terreiro. Está acostumado e segue vivo no coração da gente.

Felicidades, seu Samba.

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SÃO PAULO (bruuuu, vou pegar uma coberta) – “Um, dois, três, quatro… Valeee, vale tuuuuuuuuudo.” Se o síndico estivesse por aqui, seria mais ou menos assim que começaria seu show neste dia 20. Pelo menos é o que indica “oh nelsomotta” em seu livro sobre o furacão tijucano que atingiu a música nacional durante seus 54 anos de vida. Nunca tive a honra de ver um show do “preto, gordo e cafajeste, formado em cornologia, sofrências e deficiências capilares”. Mesmo assim, depois de 365 páginas e alguns anos de músicas de Tim Maia do Brasil, dá para imaginar o ataque da Vitória Régia na introdução de “Vale Tudo” no começo de um show lotado. Isso é claro, se ele aparecesse.

Mas o dia é importante. Símbolo da raça, seria uma daquelas datas especias em que o levado poderia ficar em segundo plano para o gordinho mais simpático da Tijuca. Em São Paulo, ele será lembrado no Memorial da América Latina, em um show da Banda Black Rio, com participação de Mano Brown. O recado será dado para quem acha que não existe preconceito no Brasil.

Tim dizia que existe. Ele fica ainda mais evidente quando a data é menosprezada por alguns. Não é difícil ouvir branquinho dando a entender que o feriado não deveria existir. Que também querem um dia em homenagem a eles. Esquecem-se dos anos de escravidão passada e presente. Deve ser essa a função do Dia da Consciência Negra. Lembrar a história de luta de gente que é tratada desigualmente por qualquer que seja a razão. O furacão Maia defendia a presença de mais negros no Congresso, até tentou ser senador pelo Rio de Janeiro, mas, é claro, não era a sua praia, e a candidatura morreu antes mesmo de começar.

O dia é para lembrar que existem preconceituosos de todo tipo, que tem gente que não gosta de brancos, japoneses, chineses, índios, peruanos, muçulmanos, católicos, evangélicos, gays, pobres, ricos, faxineiros, jornaleiros, corintianos, gremistas, velhos, jovens, gordos, magros, feios, nerds e de você mesmo.

É para cada um lembrar o que é, ter orgulho disso, sem deixar de ver beleza nos outros. O Dia da Consciência Negra é feriado em 225, dos 5.561 municípios do País, segundo levantamento da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.Ainda falta muita gente nesse baile. Tim era feio, pobre, preto, cafajeste e o gordinho mais simpático da Tijuca. Mostrou pra muita gente que valeeeeeee, vale tuuuuudo. Do Leme ao Pontal, em Porto Seguro ou São Vicente, no Universo em Desencanto. Recado de síndico. Valeu Vitória Régia.

PS: É, ao contrário do anunciado pela organização, Mano Brown não apareceu para fazer o baile dançar.

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