SÃO PAULO (cavaco na mão, começo) – Que São Paulo é uma cidade cheia de opções de shows, não é nenhuma novidade. Só uma passada de olhos pelos jornais já comprova isso. Tudo bem, nem todas agradam ao seu e ao meu gostos. Há umas caras, outras muito caras. Umas pops, outras superpops (mal Luciana Gimenez, foi sem querer querendo). E tem aquelas que acontecem um pouco mais escondidas, ao menos, das lentes da grande mídia. Não me lembro de ter lido em algum jornalão por ai: “Arlindo Cruz se apresenta nesta sexta na Peruche” ou “Dona Ivone Lara faz show para poucos no Boteco do Seu Zé”. Não sei se é por que para virar notícia o que interessa é onde eles se apresentam ou como a informação chega ao jornal, via publicidade, jabás ou afins. Enfim, vamos parar de choradeira, e ao que interessa. Eles aconteceram. E vou te contar que foram bons.
Agora não me lembro qual foi primeiro. Não faz muito tempo. Um mês talvez. Deixa eu ver no ingresso. Ahh, não to achando, deixa pra lá. Vou começar respeitando a tradição. Primeiro os mais velhos. Afinal, 87 anos e ainda mandando bala não é pra qualquer mortal. Dona Ivone Lara é isso. Quando fiquei sabendo que a dama do samba ia se apresentar em um bar na Mourato Coelho, achei que não conseguiria vê-la ou que seria um Deus nos acuda pra estar entre os privilegiados daquela noite.
Na hora, estava no caixa do Boteco, pagando umas cervejas antes de ir pra casa e acordar na segunda-feira. Tentei comprar no mesmo instante, assim que a imagem da velhinha de óculos pesados, em um flyer anunciando o show, bateu na minha retina. Não era alucinação, mesmo assim não teve como. As vendas só começariam na semana seguinte. Mais uma vez o medo e ansiedade tomou conta das minhas sinapses. Algumas ligações e convites depois, vi que teria que bater ponto ali na semana seguinte. Tudo bem, não foi um sacrifício. Depois de sete dias, cinco ingressos na mão e 100 reais a menos (ainda seria reembolsado por quatro deles, afinal não tenho filho desse tamanho), tudo levava a crer que não conseguiríamos um bom lugar. Em casas pequenas e shows tão vips, para poucas pessoas, a tendência é que os menos influente$ caiam na dança da solidão. Não foi o que ocorreu, por incressa que parível.
No grande dia, a mesa estava lá. Tudo bem não era aos pés de Dona Ivone, mas ficava a uns quatro metros de seu dedão direito. Era apertada? Era. Não cabiam quatro pessoas? Não cabiam. Beleza, vemos em pé aos pés dela então. Na chegada da sambista, os seguranças tiveram que abrir passagem para ninguém ter a infelicidade de machucá-la. Todo cuidado era pouco. A casa não estava cheia é bem verdade, mas todos os súditos queriam ficar perto da rainha. Achei que iam ter alguns bambas e nobres conhecidos na área. Nada também. Engraçado, na hora nem prestei atenção a isso, como achava que aconteceria. Só me lembrei disso agora, porque na hora só tinha olhos pra ela.
Dona Ivone sentou em seu trono e foi logo mandando o recado: “eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho, ahhh eu vim de lá pequenininho, alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho…”. A banda era boa, formada pelos meninos da casa e a cantora titular do domingo, conhecida entre nós como Maria Rita, apesar de seu nome não ser esse, certamente. Faltou um pouco de entrosamento nos primeiros versos. O rapaz do som teve muito trabalho pra arrumar a chiadeira, já que o bar não tem a acústica e o preparo de uma grande casa de show. Mesmo assim, tudo seguiu mais que nos conformes. Em pouco tempo , o público fazia o coro para a grande dama e batia na palma da mão com os meninos do batuque. Dez ou doze sucesso depois… “Acreditar eu não, recomeçar, jamais, se a vida foi em frente, você simplesmente não viu o que ficou pra trás, acreditar…”.
Confesso que a vista ficou embaçada. Não é todo dia que você vê uma lenda viva, a quatro passos de você com tamanha disposição aos 87 anos. O corpo mostrava claramente o estado de fraqueza em que ela se encontrava. Mas a voz e os olhos mostravam um brilho diferente durante os 60 minutos de cantoria. Coisa que não dá pra descrever. Mistura de alegria, cansaço, orgulho, paixão pela vida, pelas pessoas e pelo samba. Coisa que não sai no jornal todo dia. Obrigado por ter vindo, Dona Ivone.
PS: Fico devendo o show do Arlindo Cruz, foi coisa fina também. Infelizmente, o sono pesou nas pápebras. Té mais

“Clouds roll by…Low light”
