SÃO PAULO (pra lá de Bagdá) – Já diziam que o futebol é a arte com os pés, que esse esporte tão praticado em terras tupiniquins é quase um balé, quando trabalho pela ginga de muitos que aqui habitam. Eis que entram em campo duas figuras para protagonizar uma cena de um jogo que vai muito além dos 22 marmanjos tentando colocar a bola para dentro de três paus, como defendem alguns desavisados.
Kerlon, jogador do Cruzeiro, tem apresentado já há algum tempo que a cabeça também pode ser um bom instrumento para embriagar os adversários em busca da meta. No último domingo, o atacante apelidado de Foca, devido a sua habilidade em conduzir a preciosa com toques de cabeça, levantou mais uma vez, sem querer é claro, a polêmica quanto aos dribles que se podem ou não dar no adversário. Assunto que é claramente de âmbito ético e moral no campo de jogo, mas que aqui iremos ludibriar de outra forma.
Eis o caso: o atacante cruzeirense dominou a bola na ponta direita do campo do Atlético-MG, aos 38 minutos do segundo tempo, em partida válida pelo Campeonato Brasileiro de 2007, quando seu time vencia o rival, em um jogo emocionante diga-se de passagem, pelo placar de 4 a 3. De maneira rápida e sutil, como lhe é característico, o Foca levantou a bola e partiu para cima do marcador, dando pitacos com a testa, sem deixar a bola cair. A vítima: Coelho.
Para muitos, a cena que se seguiu já estava escrita nos códigos futebolísticos, que determinam: não zombarás do adversário sem justa pretensão, artigo 7º, parágrafo 4º. Ou seja, não se pode brincar com a bola de forma desrespeitosa ao rival. Dizem que isso faz parte das relações dentro das quatro linhas e está subentendido aos praticantes. Concordo plenamente e alguns roxos levados em pelejas de fundo de quintal também. Agora, futebol não é isso? A arte de iludir o adversário para atingir a meta?
Kerlon nada mais fez do que isso. Poderia ter driblado um, dois, três (olé!) e terminar com a pelota no fundo das redes ou ter conseguido o pênalti. Em nenhum momento desrespeitou Coelho enquanto homem ou pessoa. Se sua preocupação é a masculinidade, creio que o Foca não queria colocá-la em dúvida em nenhuma cabeçada. A única coisa que conseguiu foi matar um coelho com algumas embaixadas. Resultado: Coelho expulso, Cruzeiro vitorioso e uma possível punição para o apressadinho em acabar com a festa da torcida no Mineirão.
Agora, Coelho pode pegar um gancho de 120 dias, pena mínima estabelecida pelo Artigo 253 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, já que a Procuradoria do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) requisitou a fita de vídeo da partida e vai denunciar o jogador por praticar agressão física.
Frase para esquecer:
O técnico Leão depois do jogo. Nem parece o treinador que defendia o futebol bailarino quando comandava o escrete canarinho. “Eu temo no futuro, ele ficar fora de muitos anos, se um dia estiver fazendo isso e tomar um chute veloz, grave no rosto, e depois nunca mais jogar. Eu torço para que isso não aconteça nunca, mas ele está dentro do regulamento.” Essa é pra isolar do estádio.