SÃO PAULO (na pista) – Entrada: de R$80 a R$ 200 (meia para estudantes); CD do novo show de “brinde”; Copo d’água: R$ 5; Cerveja lata: R$6. Não, não é um comercial de cartão de crédito, mas bem que poderia. O novo show de Seu Jorge fez sua passagem por São Paulo nesse último final de semana e um inspirado ator, músico e compositor mostrou-se dividido entre o fantástico mundo da arte brasileira e o fantasioso mundo do showbizz, como dizem eles lá.
Em cima do palco do Via Funchal, ao lado de mais 20 músicos, o cantor nascido em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, mostrou suas 11 novas canções do CD “América Brasil”, além de passear por suas composições do tempo do grupo Farofa Carioca e a homenagem, já recorrente, à Leci Brandão e seu “Zé do Caroço”. “Carolina” (“maravilha de mulher!”) não apareceu na festa para tristeza do público que não conseguiu lotar a casa.
Misturado em suas raízes pobres e o sucesso financeiro atual, o Seu Jorge presente no palco caminha na penumbra da produção artística sem fins lucrativos e o jingle. Apesar de produzir uma turnê “independente” sem a ajuda de uma grande gravadora, o cantor, além de associar sua imagem à marca de cachaça “Sagatiba”, canta em seu show a música que fez para o comercial do produto e assume o papel de garoto-propaganda com o microfone na mão.
É claro que bancar uma turnê “independente” como essa que irá percorrer de ônibus o Brasil de Sul ao Norte não é fácil. Nada contra artistas fazerem comerciais, dentro de certos limites, mas existem concessões que são difíceis de reverter. Incluir um jingle em um setlist pode afastar quem mais tem interesse em seu trabalho: o público. Seu Jorge já disse à “Folha de S.Paulo” que não sabe mais quem são seus fãs, depois que fez o trabalho com a cantora e compositora Ana Carolina (é isso aiiiiii!). Pelo show de São Paulo, não mudou muito. Classe A, B e alguns corajosos mais pobres que deixam seus R$ 40 na bilheteria.
A força da música de Seu Jorge e sua vitalidade no palco ainda estão em suas raízes negras e pobres, na tristeza que balança, como diria Vininha. O artista negro de pernas tortas já driblou muitas dificuldades em seus 37 anos. Que a embriaguez financeira não tire o brilho de sua arte. Para quem quiser acompanhar a turnê de “América Brasil”, ai vai o blog de Seu Jorge para a empreitada.