SÃO PAULO (aaaai que prrrreguiça) – O palco seria o mesmo de 30 anos atrás, quando o coronel Erasmo Dias, entào secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, comandou a invasão da Pontifícia Universidade Católica. Mas dessa vez o Condor que aterrissou na rua Monte Alegre tentava trazer luz aos acontecimentos da época. O filme do cineasta Roberto Mader tem a missão de mostrar o horror que a operação articulada entre países do Cone Sul trouxe nos tempos em que as ditaduras dominavam os governos da região. O próprio Mader disse, após sessão na PUC-SP, que sua intenção é atingir os jovens de hoje. Jovens que muitas vezes nem sabem o que passou pelos porões de prisões políticas e até pelos corredores de sua própria universidade.
“Condor” não traz nenhum dado novo, nenhuma grande revelação. Grande parte das informações do filme já é de conhecimento de muitos há tempos. A força do filme está em remexer memórias que teimam em ser jogadas para trás e em traçar um claro panorâma de ações planejadas entre as máquinas repressivas desses países. O horror pode ser sentido no filme em histórias pessoais de suas vítimas e algozes. Não é sempre que se tem a oportunidade de ouvir Jarbas Passarinho, ministro na época da ditadura militar no Brasil, falar abertamente sobre o assunto ou Hebe de Bonafini, lider das Madres de Maio, contar a dor das mães que perderam seus filhos vítimas da tortura e de assassinatos realizados pelas forças de Estado.
Ao término da apresentação, a sensação de que faltou mexer mais nas feridas brasileiras apareceu nas perguntas da platéia a Mader. O diretor se defendeu dizendo que o Brasil é tratado com bastante enfase no seu trabalho, vide as falas de Jarbas Passarinho. Ele também lembrou a entrevista do ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, do PT, um criadores do jornal CLAMOR, publicação que tentava noticiar os crimes e ajudar as vítimas das ditaduras no Cone Sul. Isso está na tela, mas a carga emocional mais forte fica em histórias como a das crianças uruguaias, tiradas de seus pais e entregues a uma família no Chile. Nas lágrimas das mães argentinas ou de filhos chilenos.
Mader também se voltou em sua defesa para a bandeira da abertura dos arquivos militares da ditadura brasileira, que ainda não foi feita totalmente. O diretor reinvindicou a aceleração desse processo, pois deve jogar luz em muita sujeira dos porões.
“Condor” contou com dinheiro da Lei Rouanet, incentivo à produção cultural por meio de mecânismos de isenção fiscal a empresas privadas. O longa ainda tem a ajuda da Globo Filmes em sua divulgação. Não deve ser o filme de maior bilheteria e não deve trazer grandes lucros aos seus produtores, se é que dará lucro. Ainda assim, deve deixar um pouco de luz nas salas escuras que passar, mexer com alguns corações e mentes jovens e por que não adultas também.
