“Mande notícias do mundo de lá. Diz quem fica.”
SÃO PAULO (longe, muito longe daqui) – O amor é mau. Muito mau. Deve ter sido isso que se passou pela cabeça do escritor peruano Vargas Llosa ao criar o livro “Travessuras da Menina Má”. Uma história sofrida que teria tudo para acabar com um final feliz, água com açucar (sou viciado em açucar), estilo Hollywood, mas, com tons de realismo, termina mal. Muito mal.
Llosa diz que a história em si não existiu, mas os lugares eram dele. O Peru de pequeno, a Paris dos anos 60, Londres dos 70 e a Espanha dos 80. Essa mistura de realidade histórica e ficção amorosa, se isso não for pleonasmo, prende os mais romanticos. A “chilenita” Lily ilumina e escurece a vida de Ricardo Somocurcio a hora, dia, mês e ano que deseja. Um vício que ele não consegue largar e faz o leitor oscilar, ao seu lado, da alegria a tristeza ao trocar de páginas. Quase que um surto psicótico, repleto de fantasias quentes e soturnas, ao longo da vida do tradutor da ONU.
O autor remexe suas lembrança e das personagens de forma que ao final não se sabe o que fica, não se consegue ao fim diferenciar a realidade da fantasia. Ficam as palavras, vão-se os fatos. A dissimulada Lily é a essência disso. É a realidade-ficção em si. Uma personagem que não se sabe o que é; a única noção que se tem dela é o que se diz que faz. Mente e se traveste para atingir seus objetivos. flutuantes e mutantes ao seu gosto. A lógica romantico-quadratersiana não da conta da pobrezita. Ela é a feliz tristeza.O paradoxo em si. Ricardito só se dá conta disso um pouco antes do ponto final. Quando coloca em dúvida tudo o que acabara de contar.
A aprendiz de revolucionária em Havana, a esposa de um milionário britânico na swinging London, a amante de um mafioso japonês podem ser apenas frutos de sua criação, assim como o amor dos tolos. Ao fim, só restam as gostosas letras e sensações. Quem se importa com o que está no meio disso? Os empresário e ricaços, vítimas da “chilenita”? Deve ser. Alguém tem que trabalhar. Aproveite e mande notícias do mundo de lá.
