SÃO PAULO (bruuuu, vou pegar uma coberta) – “Um, dois, três, quatro… Valeee, vale tuuuuuuuuudo.” Se o síndico estivesse por aqui, seria mais ou menos assim que começaria seu show neste dia 20. Pelo menos é o que indica “oh nelsomotta” em seu livro sobre o furacão tijucano que atingiu a música nacional durante seus 54 anos de vida. Nunca tive a honra de ver um show do “preto, gordo e cafajeste, formado em cornologia, sofrências e deficiências capilares”. Mesmo assim, depois de 365 páginas e alguns anos de músicas de Tim Maia do Brasil, dá para imaginar o ataque da Vitória Régia na introdução de “Vale Tudo” no começo de um show lotado. Isso é claro, se ele aparecesse.
Mas o dia é importante. Símbolo da raça, seria uma daquelas datas especias em que o levado poderia ficar em segundo plano para o gordinho mais simpático da Tijuca. Em São Paulo, ele será lembrado no Memorial da América Latina, em um show da Banda Black Rio, com participação de Mano Brown. O recado será dado para quem acha que não existe preconceito no Brasil.
Tim dizia que existe. Ele fica ainda mais evidente quando a data é menosprezada por alguns. Não é difícil ouvir branquinho dando a entender que o feriado não deveria existir. Que também querem um dia em homenagem a eles. Esquecem-se dos anos de escravidão passada e presente. Deve ser essa a função do Dia da Consciência Negra. Lembrar a história de luta de gente que é tratada desigualmente por qualquer que seja a razão. O furacão Maia defendia a presença de mais negros no Congresso, até tentou ser senador pelo Rio de Janeiro, mas, é claro, não era a sua praia, e a candidatura morreu antes mesmo de começar.
O dia é para lembrar que existem preconceituosos de todo tipo, que tem gente que não gosta de brancos, japoneses, chineses, índios, peruanos, muçulmanos, católicos, evangélicos, gays, pobres, ricos, faxineiros, jornaleiros, corintianos, gremistas, velhos, jovens, gordos, magros, feios, nerds e de você mesmo.
É para cada um lembrar o que é, ter orgulho disso, sem deixar de ver beleza nos outros. O Dia da Consciência Negra é feriado em 225, dos 5.561 municípios do País, segundo levantamento da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.Ainda falta muita gente nesse baile. Tim era feio, pobre, preto, cafajeste e o gordinho mais simpático da Tijuca. Mostrou pra muita gente que valeeeeeee, vale tuuuuudo. Do Leme ao Pontal, em Porto Seguro ou São Vicente, no Universo em Desencanto. Recado de síndico. Valeu Vitória Régia.
PS: É, ao contrário do anunciado pela organização, Mano Brown não apareceu para fazer o baile dançar.
