
SÃO PAULO (quem inventou os pêssegos? Dio mio) – Tudo certo. Horário do plantão trocado. Já era hora de conhecer aquela voz castigada pelo álcool de perto. Acordo mais cedo. Acostumado a outro fuso biológico, o corpo já não responde do mesmo jeito. Mesmo assim, está tudo no cronograma. Trabalho, almoço, dormidinha e o encontro. Passo na casa do companheiro em tempo.
Os aredores do Sesc Pompéia fogem do clima abandonado a que a cidade foi largada com as festas do ano-novo. A movimentação aumenta, mas nem de longe aparece aquele mar de gente comum nesses tipos de encontros. Sim, os flanelinhas estavam lá, mas os carros não lotaram seus bolsos. Deu para parar tranquilamente. Tudo caminhava para o insensato destino.
Ele finalmente apareceu. Em forma de uma placa avisando que os ingressos estavam esgotados. Ingressos? Mas que ingressos? Não li em nenhum lugar que precisava disso. Achei que o evento era gratuito e aberto a todos. Estava enganado. Devia estar enebriado pelo clima amistoso pelo qual a cidade estava tomada. Sem filas, sem carros, sem trânsito, sem fúria, sem jeito fiquei. Contra fatos não há argumento, já diria alguém. Só ódio mesmo. O amargo na boca estava incontrolável. Não desceu bem mesmo.
Não podia me dar por vencido. Nada indicava que não caberia mais dois para encarar o bamba. Tá bom vai, mais uns trinta. Não fui o único supreendido pelo destino. Tinha gente que parecia tão decepcionada quanto eu. Gente da comunidade, gente sem comunidade, gente que se emperequetou toda pra ver o Almir, gente que tirou aquele pisante branco do armário e a melhor camisa pra se mostrar na estica como o Guineto.
Não teve jeito. Tiveram alguns sortudos que foram presenteados pela chave mágica na porta da esperança. Alguns tinham mais de um ingresso para cada par de perna. O Flamenguista era uma mistura de choro, fúria e desespero. Descobrira um cambista com um bolo de ingressos no bolso, vinte e cinco reais cada. Mas não era de graça? Não dava pra distribuir um por pessoa? Olhava o pouco da pista na fresta entre o segurança, a porta, a parede e a triste senhora de rosa. Juro que cabia mais gente sem risco ao bom convívio de todos. Ninguém ia se sentir que nem na lata de grandes rodas em que andam para cumprir o batente todos os dias.
Espremido estava o coração. O refrão já deixava o Conselho pra trás. Não queria desistir. Que isso, companheiro. Quero tentar. Ainda vai ter um bom coração que vai devolver o brilho a esses 25 olhares, deixar de lado aquele baixo astral e esquecer o mal. Ingenuidade pura. Não sei por que ainda tenho isso. Deve ser aquela esperança besta em algumas vivas almas.
Só restava tirar aquele amargo da boca com algo gelado. Quatro gelados depois, o show não ia mais continuar. As portas se abriram e alguns sorrisos fáceis passaram. Certeza que cabiam mais algumas risadas na boca daquele palco. Feliz velho ano.