SÃO PAULO (ufa, nada como uma cadeira) – Como estava falando, a festa do antigo colégio tava boa. Só não esperava o que estaria por vir. Esperava, vai, mas não do jeito que foi. Seu Almir e o jovem Diogo prometiam. Não era dos maiores fãs do garoto cheio de acessórios de ouro. Confesso que pensei em desistir.
Minhas pernas já não equilibravam direito os 76 quilos sobre elas. Precisava descansar ou, mais uma vez, não veria os conselhos de Almir. Olhei para os lados e nenhum lugar razoavelmente seguro pra encostar. Apoiado na grade que separa o público da boca do palco, só passava pela minha cabeça pular aquela cerca. Tudo bem, seria detido pelos seguranças da área “vip”em questão de segundos. Parti então para a estratégia diplomática. Perguntei ao rapaz-que-manda-prender-e-soltar o que precisava para estar entre aqueles agraciados por Deus.
A resposta me causou certa revolta. Precisava fazer parte da patota da prefeitura. Uma festa da cidade, que deveria ser para todos os cidadãos de uma forma democrática, era oferecida com certa regalia para quem deveria servir ao povo e não se servir dele. A calma ficou para trás junto com a força das pernas, mas sabia que esbravejar só iria dificultar as coisas.
Em segundos, aprendi a fazer cara de quem era convidado da prefeitura. Ensinei ao meu fiel companheiro de siriguidum e encaramos outro rapaz-que-manda-prender-e-soltar. Não deu outra, nossa cara foi convincente, principalmente, porque a segurança era aquela que estamos acostumados a não ver.
Atrás do palco, tinha um espaço reservado para um pouco de amendoim, barquinhos de maionese, guaraná, água e a cerveja que já tinha acabado, é claro. Me larguei no primeiro banco que apareceu. Os conselhos de Almir voltavam a ser uma realidade próxima. Dez, vinte, trinta, quarenta, cinqüenta, sessenta, setenta minutos se passaram e o filho do João não tinha nem dado a graça. Meu fiel escudeiro estava lá para vê-lo. Agora eram as costas que não agüentavam. Até que o locutor anunciou. “Diooogo Nogueeeeiiira”. Partimos para a área dos agraciados pelo poder de Deus.
O garoto de acessórios de ouro não me impressionava, mas, quando ele apelou para o sentimentalismo barato, cai que nem um patinho. Não tinha como não se emocionar com o dueto dele com seu pai João, que Deus o tenha, em “Espelhos”. Música do caralho e esquema Nat King Cole. Continuo não gostando dos seus anéis e a pinta de playboy, mas há de se respeitar que o garoto nasceu no samba e tem tradição no sangue. Mas minha história era outra. Precisava de conselhos.
Voltamos para perto dos amendoim. Eles não estavam mais lá, não estavam liberando mais guaraná nem água. Nem água?!? Safados. Tava tudo lá, só faltava compaixão e um pouco de boa vontade. Não teve como. O Almir ficava cada vez mais longe. Já era 4h40 de domingo e nada. Combinei que se ele não aparecesse em 15 min, iriamos embora. Não tava dando mais. Até que o locutor anunciou. E com vocês: não era o Almir. Ele anunciou uma outra banda. Foi a gota d`água. Já estava caminhando em direção do rapaz-que-manda-prender-e-soltar, quando a escada do palco me seduziu. Queria conhecer como era aquele lugar de tanta magia.
Convencido, meu fiel escudeiro concordou que só mais dez minutos pra ver como era a magia. Afinal, o Almir não ia aparecer. O nono minuto fazia seu percurso final, fizemos o sinal de positivo e nos viramos em direção à escada e ao rapaz-que-manda-prender-e-soltar. Não era ele que estava lá. Os olhos foram preenchidos por uma visão. Era ele. O negão subia a escada na estica. Sapato preto brilhando, calça social cinza bem passada, cinto preto e camisa cinza (acho que era isso. A visão já não funcionava direito e o coração não deixava pensar). Era ele mesmo. Não teve como. Só podíamos dizer uma coisa: “Puta que pariu”.
O Almir merece um texto só pra ele. Vou ter que preparar outro e acabar esse por aqui. Vai vir conselho por ai.