SÃO PAULO (o Kobe joga demais) – Não teve como resistir. Os conselhos de Almir estavam a caminho, mais especificamente falando, subindo as escadas a nossa frente. Ele, uma bela senhora, que parecia ser sua mulher, e alguém que tinha pinta de ser seu empresário. Foi chegando devagar, sem muito alarde, mas todos perceberam de cara a elegância entrar na coxia. Os meninos continuavam ludibriando a platéia cansada e guerreira do Anhagabaú.
Todos na banda começaram a demonstrar o respeito ao bamba. Ele não tinha nem entrado no palco e sua presença já podia ser sentida. O assessor fazia o meio campo, dizia ao pé do ouvido do Almir quem era quem, alguns ele parecia se lembrar. Uns cumprimentos entre uma batucada e outra, era chegada a hora. Pegou o microfone, pisou firme e entrou já mostrando que tava na área. A memória já não tá ajudando. Não era Conselho, nem Caxambu, mas ninguém conseguiu ficar parado. O telecoteco começou quente. A alegria acabou com as dores nas pernas. Eu e meu parceiro combinamos só umas cinco músicas.
A sexta era imperdível. Ta bom ficamos mais essa. E a sétima então? Mais uma. A vigésima também não tinha como perder. Quem parecia não estar muito feliz era o seu Almir. Com a toalha em uma mão e o microfone na outra, regia a banda. Eles estavam bem. Tinha cavaco, pandeiro e tamborim, mas em algumas o velho precisava dar a levada. Coisa de cabra da antiga. Mas o que incomodava não era o ritmo da banda. O problema estava na voz. Não na dele, rouca e grave na medida de Almir, daquela que nunca se sabe se nasceu bêbado ou se é assim mesmo. Era a voz das caixas que não estavam agradando o ex-fundo de quintal. Reclamou uma vez com a mesa de som. Seguiu. Reclamou mais uma. Trocaram o microfone. Na terceira vez, o outro cantor deu seu instrumento a Almir. Mais uma música.
O clima tava pesado no palco. Ninguém parecia entender nada. O empresário-assessor começou a ficar sem graça. A mulher parecia já prever o pior. Almir dessa vez tirou o microfone da boca e gritou para o técnico na mesa de som. “Porra. Que merda é essa?” “Tá querendo fuder?”. Seguiu para o público, como se nada tivesse acontecendo. “Tem que mudar. Não se abater. Só se entregar, a quem te merecer..” Mais uma vez trocou de microfone. Parecia normal, mas para ele nada. Mais uma vez gritou. “Caralho! Que merda é essa?” O técnico mudo. Almir se virou deixou o microfone no chão. Bateu palmas para o público e vapt. Zarpou pela esquerda com aquela que parecia a mulher e o outro que tinha pinta de empresário. O outro cantor da banda logo soltou o “se vira nos 30” e seguiu com a toada, mas o show não tinha como continuar. O bamba se foi. Pisando firme mais uma vez.
Os solos perderam a emoção. Acabou o gás. O Metrô já estava aberto e as pernas voltaram a doer. Foi bamba enquanto durou.