
SÃO PAULO (sem gripe suína, ao menos por enquanto) – Diário de bordo. Back from Buenos Aires. Entre mortos e feridos, destaque para a partida entre Boca X Gimnasia. Amantes do bom futebol, os sete vira-latas lokos em sua viagem de férias pelas terras hermanas não poderiam deixar de ver de perto a arte vizinha. Não discutiremos aqui quem são os melhores, nós ou ellos, pois já sabemos quem é o peeeeentacaaaaaaaapeãoooooooooo mundial. Visto isso, vamos aos fatos.
A vontade era de ver a partida como um autêntico torcedor, no meio de La 12. Tínhamos isso na cabeça até visitarmos a Bombonera dois dias antes da partida. Na visita ao estádio, ouvimos diversos mitos sobre o Boca e sua torcida, sobre Maradona e sua carreira, sobre a beleza e a violência nas arquibancadas. Claro que só acreditamos em 20% do que nos foi dito, mas uma coisa era certa. Não iríamos conseguir passar por argentinos em sete. Depois de muito ouvir os hermanos nos arredores da Caixa de Bombons, decidimos encarar o pacote turístico do albergue. Sim, era caro, mas era certo também.
O dia havia chegado. No fundo, a única atração que não queríamos perder em Buenos Aires era aquela. Subimos no ônibus com outros 30 ingleses. Tava na cara que não deveríamos ficar perto deles. Tanto para não sermos roubados, como para não vermos o jogo do turistian way of life. Saímos do albergue com três horas de antecedência para o ínicio do jogo. Como todo bom brasileiro, queríamos dar aquela aquecida na garganta ao redor do estádio. Uma cervejinha só para entrar no clima. Não teve como. O barco tomou outro rumo. Bar em San Telmo. Lugar bonito, clima legal, mas faltou honestidade nos preços. Esperamos todos os gringos encherem a cara e torrarem seus euros e, finalmente, partimos para o estádio.
Antes de tocarmos para a Bombonera, tivemos uma baixa no grupo. Um dos perros lokos se perdeu da matilha. Pensamos o que teria acontecido. Um pedaço de carne o teria levado, um osso largado, uma cadela no cio…. Sem respostas, confiamos no faro do companheiro de caça para chegar lá. Afinal de contas, não era mais um filhote, conseguiria se virar.
Com 30 minutos para a peleja começar, as arquibancadas ainda estavam vazias. Achamos que o jogo seria morno, sem graça. Mas La 12 foi chegando aos poucos. De frente para a nossa arquibancada, os degraus do outro lado da cancha eram ocupados aos poucos. As faixas enfeitavam o estádio. Aquela com a contagem dos gols do atacante Palermo, no seu devido camarote. Eis que uma faixa da torcida visitante se solta e fica pendurada no andar superior ao nosso. A torcida do Boca pira. Começam os gritos. Vejo um rapaz bem vestido pular o alambrado e ir em direção a ela. Achei que fosse algum tipo de segurança à paisana. Nada. Era um membro de La 12, atrás de seu prêmio.
Agarrado na faixa como a um cipó, o doido com a bela jaqueta da torcida organizada tentava rasgá-la. Não adiantou. Surge então um isqueiro. O vento atrapalhava, mas aos poucos pequenos buracos eram feitos nela. Até que apareceu um lança-chamas. Na verdade, um desodorante spray que rapidamente colocou fogo e incendiou a torcida. Ali dava pra perceber que o mais importante na Bombonera era a torcida e não o jogo.
Os times entram em campo. Jogadores escalados. Sim, Roman, Palacio e Palermo estão lá para a nossa alegria. Apita o árbitro, está valendo na Caixa de Bombons.
O jogo começa com o Boca melhor, trocando muitos passes. Mas é o visitante que marca primeiro. Em um dos 47 vacilos do lateral esquerdo do Boca, passe errado pega a defesa despreparada e pimba na gorduchinha. 1 a 0 Gimnasia. A laje de cima balança. A Caixa de Bombons se esfarela nas nossas cabeça. Num primeiro momento achamos que estavam jogando coisas na gente por não sermos dali. Só mais tarde, com uma pedra na cabeça percebemos que era cimento da Bombonera.
O jogo segue na mesma toada. O Boca troca muitos passes, quase não tem lateral nem escanteio. Mas é o Gimnasia quem tem claramente o domínio do jogo. Quando ataca, leva mais perigo. Quando é atacado, não tem grandes problemas. Só que a peleja era na Bombonera. O Boca está em péssima colocação no campeonato e o árbitro arrumou um pênalti mandraque. O gigante Palermo é “deslocado” dentro da área em um cruzamento e caiu. Piiiiiiiiiiiiiii.
Bola na marca da cal. Palermo preparado. Correu, bateu, tá lá. 1 a 1. Teve parceiro que dormio no ponto, deu uma antoniada e perdeu o gol. É o primeiro caso de gol de pênalti não visto por um espectador na história do futebol mundial.
Na volta do intervalo, até parece que o time da casa vai virar a partida. Mas a toada é a mesma. Muitos passes, sem laterais ou escanteios. Roman até mostra por que é diferente. Vê espaços só imaginados por craques. Nem isso faz a diferença. Falta próximo da área para o Gimnasia. Cobrança na área, tá lá. 1 a 2. Confesso que fui enganado por um comentário de um colega e não vi o gol. Acontece. Pelo menos não foi de o pênalti que perdi.
A peleja segue no mesmo ritmo. O Boca parece satisfeito. Está na zona de rebaixamento, mas não será rebaixado. Os hermanos protegem os grandes. Para cair para a série B, faz-se uma média dos últimos três campeonatos, dizem as más línguas.
Já o Gimnasia comemora a vitória como um campeonato. E foi isso mesmo. Eles escaparam do rebaixamento em plena Caixa de Bombons. O jogo foi bom, mas o que ficou na cabeça ecoando por uma semana foram os cantos da La 12. Espetáculo. Outro estilo de torcer. Bonito como o daqui, só que diferente. Mais constante, menos explosivo, mais ritmado e musical. Dale Bo, Dale Bo, Dale Bo. Vai Curintia