SÃO PAULO (Marcelinho acaba de fazer gol no Curi, canalha) – Jogo, partida, pelada, peleja, racha, rachão, baba… Baba? Isso mesmo. Existe lugar no Brasil em que essa saudável brincadeira com duas traves e alguns malucos atrás de uma bola é denominada baba. Mais precisamente pelas bandas da Bahia. Dizem que a expressão vem da idéia de se jogar futebol sem profissionalismo, de forma amadora, o sentido teria surgido da frase “esse jogo está uma baba (de quiabo)”. Verão que pouco importa.
Deve ser por isso que aqueles baianos não ligavam tanto assim para o gol. A meta parecia ser tirar sarro do adversário. O palco era a praia da Coroinha, em Itacaré. Não é exatamente a capital do futebol no estado. Numa primeira bisoiada, eles estavam longe do nível dos rachas das praias aqui do sul. Visto da calçada, a bola pouco rolava e não se via aquela troca de passes longos, característico dos velhacos da Lagoinha.
Confesso que já fiquei de língua caída nas pelejas contra os tiozinhos da Tabatinga. Em campo, eles nem pareciam os pais de família com suas latinhas de cerveja e salgadinhos de minutos antes. Deve ser coisa da redonda.
Nas areias baianas não foi diferente. Pra começar as regras eram diferentes por lá. Não existe essa de time de fora e 10 minutos ou dois gols. Começado o baba, os dois times só saem quando quiserem. Por isso, pra entrar no jogo é bom conhecer alguém antes da bola rolar ou torcer pra alguém sair.
Comigo, quase que a segunda hipótese deu certo. Estava do lado de fora querendo tirar uma lasquinha do baba já começado. Claro que o paulista não conhecia o estatuto local. Percebi que não tinha time de fora, mas ali estava um cabeleira reclamão doido pra entrar. Sua putice era percebida por todos. Dizia que foi sacaneado e deveria estar mostrando sua habilidade em campo. Não parecia ter muita, é verdade. Chegava a ameaçar chutar a bola pra longe, caso a coitada parasse perto dele.
Achei que era brincadeira de amigo, até que ele cobrou um tiro de meta a la Marcão em direção ao mar. Todos levaram numa boa. Parecia ser esse o espírito do lugar. Nada de regras, nem rancor. Até que um dos escalados para a disputa resolveu sair para dar lugar ao cabeleira. O marrento não quis entrar, é claro. Foi então que ouvi a esperada oferta. Não titubiei. Sou idiota, mas não sou trouxa. Entrei já perguntando o time e pra onde atacava. 30 segundos se passaram e o mal-estar já começava a se instalar. Logo entendi.
O substituído queria apenas dar lugar ao cabeleira, e o reclamão não queria entrar. Não queria nem saber (coloca a menina pra rolar). Não teve jeito. Tive que sair para o substituído voltar, e o baba parado há 5 minutos continuar. Mas a minha vez ainda estava por chegar.
Tive de amenizar minha vontade de bola em um futebol mirim. Não eram crianças propriamente ditas, mas preferiam jogar em um semigramado com relevo de minigolfe a desfrutar do outro campo de areia ao lado do baba oficial. O tempo passou e lá pelas tantas, quando já estava tirando meu time de campo, surgiu outro desafio de baba. O jogo principal da praia da Coroinha já havia acabado e o palco estava vazio.
Meu time seria formado pelos jogadores mirins. Do outro lado, o adversário parecia mais bem preparado para a brincadeira. Pelo menos metade da esquadra tinha 1,80 m e 90 kg. Cidade de praia. Todos com cara de jogadores de capoeira em plena atividade. Mas aqui é curi, eu precisava chutar em direção a uma trave e não de ter dois chinelos como a meta.
O baba começou. Dez minutos se passaram e tava lá. 2 a 0 para eles, fora o baile. Ali comecei a entender melhor o significado da palavra. As jogadas individuais determinavam o ritmo de jogo. Ao contrário da minha primeira impressão, sim… eles eram habilidosos, sabiam lançar, cabecear e cruzar com precisão. Meu time estava tomando um sacode. Até que em uma tabela pela meia esquerda, acertei uma pancada no gol, 2 a 1. Certeza que eles não colocavam fé no paulista magrinho e branquelo. Mas futebol tem dessas.
Outra bola na corrida e pau. O goleiro espalmou e ficou atordoado. O nosso time começou a crescer e a igualar as ações. O guarda-metas gritava com a zaga da sua squadra. “Segura o de branco, não deixa chutar.” Senti que estava com moral e gostava do jogo, mas o preparo não é mais o de outros tempos. Sem saber se agüentaria muito mais, ainda queria sair por cima.
Não é que ela tem dessas. Recebi outra bola pela esquerda, cortei um marcador e pau. Ta lá, Mais um. 2 a 2. Era a hora puxar o carro Três minutos depois falei com um dos espectadores e a substituição foi feita.
Os meninos continuaram jogando por mais uma hora. Eles podem. Baba, rachão, racha. peleja. pelada, partida, jogo… Não importa qual a graça, a alegria ou o sassarico, Os encantos da redonda ultrapassam fronteiras e subvertem a lógica de cada um.