
SÃO PAULO (Friiiiio. Pedrão, fecha a porta da área, faz favô) – Cabeça vazia é a casa do diabo, diria a minha e muitas vovozinhas nesse mundão afora. Exemplos não faltam para comprovar ou negar tal ideia. “La Tête em Friche” (“Minhas Tardes com Margueritte”, de Jean Becker) é um daqueles filmes que vêm para quebrar com tal pensamento transmitido de geração em geração.
Nele, Gérard Depardieu interpreta Germain Chazes, um homem mal-tratado por sua mãe desde a infância, bullingnado (já que tá na moda) por seus amigos e colegas, desde os tempos de colégio até a idade adulta, por seu quase anafalbetismo, e que vive de bicos e da ajuda de alguns em uma cidadezinha na França. Seria o protótipo perfeito para um desastre de pessoa nos padrões atuais.
Seria, mas, contra a premissa da vovozinha, nesse projeto o diabo não achou espaço. Nada contra diabruras, muitas vezes bem saudáveis. É justamente nessa mente vazia que uma bela relação de amor encontra, sem pieguices hollywoodianas, espaço para florescer.
Margueritte (Gisèle Casadesus), flor rara já com algumas de suas pétalas atingidas pelo tempo, se nutre da curiosidade tímida e quase infantil do grandalhão para transmitir seu gosto por histórias e pelos livros. Em pouco tempo, seus encontros na praça rodeados por pombas, fantasia e emoção mexem com a “tête” dos dois. Neles, ambos encontram novos motivos para seguir seus enredos. Encher seus cotidianos, para alguns vazios, de novas vidas.
Novas vidas, ou melhor, velhas vidas também são tema de “Meia noite em Paris” (“Midnight in Paris”) de Woody Allen. A sacada genial, como diria meu ex-chefe, do velho Woody de colocar o protagonista (seu alter-ego?) em uma viagem no tempo para viver a efervecente cena cultural de Paris dos anos 1920 não dá frutos ao fim.
Um Owen Wilson, muitas vezes cópia piorada de atuações do ator Woody Allen, não consegue emocionar mesmo com a sacada genial (pra você ex-chefe) da possibilidade de tal experiência. As festas e descobertas ao lado do casal Fitzgerald, de Picasso, Dali, Buñel, Hemingway e outros servem apenas para reforçar seus estereótipos. Dali, o louco, Hemingway, o bruto, Picasso, o adúltero… e assim vai.
Pena, pois ao cabo não existe uma simples emoção que tais vidas e experiências poderiam gerar ao romancista que quer abandonar a carreira bem sucedida de roteirista de cinema em Hollywood, ou ao expectador envolto pelo cheiro de pipoca com manteiga.
Tá certo que a ideia sobre a nostalgia de um tempo que não vivemos é interessante. Que se vivido perderia sua graça e tal. Não vou negar que ri em certas partes, como também o fiz com Depardieu. Mas minha cabeça vazia não se lembra de perder a razão, um simples suspiro ou uma lágrima. Naquela meia noite ficam somente um monte de referências para os entendidos e eruditos de plantão. Prato cheio para os pedantes de carteirinha. Melhor uma tarde como um burro qualquer. Não é, Margueritte?. Pedante? Eu? Ahhhh.